Os
Evangelhos foram compostos depois que os primeiros cristãos haviam-se dividido
em diferentes correntes. Eles foram, na verdade, compostos para propagar os
ensinamentos especiais das várias escolas e seus autores não hesitaram em
adaptar os documentos anteriores e outros materiais tradicionais a respeito dá
vida e dos ensinamentos de Jesus (que a Paz esteja sobre ele), para alinhá-los
com os pontos de vista das suas respectivas escolas. O Rev. T. G. Tucker,
escreve:
"Assim,
produziram-se Evangelhos que claramente refletiam a concepção à luz das
necessidades práticas da comunidade para qual eram dirigidos. Neles, o material
tradicional era utilizado sim, mas não existia escrúpulo em adulterá-lo ou de
lhe fazer acréscimos, ou em omitir aquilo que não servisse aos propósitos de
quem escrevia."(5)
Os quatro Evangelhos incluídos na Bíblia não eram os únicos Evangelhos escritos nos primeiros séculos do Cristianismo. Houve muitos outros, inclusive aquele chamado de "O Evangelho Segundo os Hebreus", uma obra aramaica, usada pelos nazarenos (como se chamavam os primeiros discípulos de Jesus), que negavam a divindade de Jesus (que a Paz esteja sobre ele), e o consideravam tão-somente como um grande profeta.
Ao final do segundo século, os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João foram incluídos no "Cânon" e os demais foram declarados heréticos ou apócrifos pela Igreja, Antes deles serem canonizados e aceitos como escrituras, os Evangelhos não possuíam a consagração que têm agora, e ninguém sentia qualquer escrúpulo ao altera-las se algo que contivessem não servia aos seus propósitos ou aos propósitos da sua seita.
Mesmo
depois que eles foram incluídos no Cânon e declarados como sendo a Palavra de
Deus, as mudanças continuaram a ser feitas neles, como está claro da comparação
de diferentes manuscritos antigos existentes. Referindo-se a isto, o Professor
Dummelow de Cambridge escreve no seu famoso comentário sobre a Bíblia Sagrada:
"Um
copista não raro incluía não o que estava no texto, mas o que ele achava que
devia estar nele. Ele confiava numa memória volúvel, ou configurava o texto de
acordo com os pontos de vista da escola a que pertencesse. Além das versões e
citações dos Pais do Cristianismo, sabia-se existirem quase quatro mil
manuscritos gregos do Testamento. Como resulta disso, a variedade de (interpretações)
é considerável.’’ (6)
Para
considerarmos até que ponto os quatro Evangelhos Canônicos representam
fielmente a mensagem inspirada ou Evangelhos de Jesus, precisamos ter em mente
os seguintes fatos:
(1) de que não se fez nenhuma cópia dos ditos inspirados de Jesus durante a sua vida;
(2) que os registros mais antigos dos ditos de Jesus, que foram feitos logo após a passagem de Jesus, quando já havia-se iniciado a glorificação dele, também foram irrecuperavelmente perdidos;
(3) que nos Evangelhos, que foram escritos entre 70 e 115 d.C., baseados em alguns desses documentos perdidos, o material inserido neles foi manipulado com desenvoltura e liberalidade, não tendo os escritores dos Evangelhos qualquer indecisão em modificá-lo para expressar aquilo que eles considerassem condizer e conduzir à maior glória de Cristo ou para alinhá-lo aos pontos de vista das seitas de que fossem adeptos;
(4) que nenhum dos evangelistas conhecera Jesus ou mesmo o ouvira falar;
(5) que os Evangelhos foram escritos em grego, enquanto que o idioma falado por Jesus era o aramaico;
(6) que eles foram escritos para propagar os pontos de vista das diferentes facções e foram escolhidos entre muitos outros que representam pontos de vista ainda mais divergentes;
(7) que, por pelo menos um século, após terem sido escritos, eles não possuíam qualquer autoridade canônica, e podiam e foram realmente modificados pelos copistas das diferentes seitas para servir a propósitos próprios deles;
(8) que os manuscritos extensos mais antigos dos Evangelhos - Codex Sinaiticus, Codex Vaticanus e o Codex Alexandrinus - pertencem ao quarto e quinto séculos, e ninguém sabe o quanto realmente os Evangelhos foram alterados no curso de tempo em que inexistiu qualquer manuscrito;
(9) que existem divergências consideráveis entre os diversos manuscritos existentes do quarto e quinto século; e finalmente;
(10)
que os Evangelhos, vistos como um todo, estão repletos de contradições.
Esses fatos, revelados por eméritos eruditos ocidentais, demonstram que o Evangelho de Jesus, aquele que foi a Mensagem que Jesus havia recebido de Deus, não chegou até nós em sua forma original. Os quatro Evangelhos incluídos na Bíblia não podem ser considerados idênticos ao Evangelho inspirado de Jesus(que a Paz esteja sobre ele).
O
modo em que foram escritos e as circunstâncias pelas quais passaram são de tal
ordem que eles não podem nos servir como fontes de conhecimento exato do que
Jesus realmente havia dito e ensinado. C.J. Cadoux resume esta posição da
seguinte forma no seu livro.- "A Vida de Jesus" - :
"Nos quatro Evangelhos, portanto, os documentos principais aos quais devemos nos reportar, se quisermos preencher o esqueleto formulado por eles, de outras fontes, ainda assim nos defrontamos com material de qualidade e confiabilidade altamente divergente e duvidosa. Tão profunda é a incerteza desse, que somos tentados a desistir prontamente e a declarar a tarefa como impossível. As inconsistências históricas e as improbabilidades em trechos dos Evangelhos formam alguns dos argumentos com que se favorece a teoria do mito de Cristo. Estas são, entretanto, totalmente contrapesadas -como já demonstramos- por outras considerações. Ainda assim, as discordâncias e incertezas que restam são graves e conseqüentemente, muitos contemporâneos, mesmo não tendo qualquer dúvida da existência real de Jesus, vêem como impossível qualquer tentativa de desassociar a verdade histórica do conteúdo mítico ou legendário presente nos Evangelhos, para que se pudesse reconstruir a história da missão de Jesus a partir dos resíduos históricos que se pudesse extrair." (7)