A
terceira parte do dogma cristão da Redenção é de que Jesus (que a Paz esteja
sobre ele); terá expiado a culpa pelo pecado original e outros dos homens, com
a sua morte na cruz do Calvário, e de que a salvação não pode ser almejada
sem crença no poder salvador do sangue dele. Isto é o que lemos na Primeira Epístola
de Pedro:
"Sabendo
que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver... não a preço de coisas
corruptíveis de ouro ou de prata, mas pelo precioso sangue de Cristo, corno dum
cordeiro sem nódoa e imaculado"
(I Epístola de Pedro 1:18-19).
E
eis o que dois modernos apologistas cristãos (um protestante e um católico
romano) escreveram:
"Passamos
agora para a doutrina da Redenção, que é a de que a morte de Cristo fora em
certo sentido um sacrifício pelo pecado, e, portanto reconciliou Deus o Pai e o
homem pecador. E apesar de não estar explicitamente dito nos Credos, está implícito
nas palavras foi crucificado também por nós, e que sofreu para a nossa salvação"
(22)
"Desde
que Cristo, Deus e homem tomou a Si os nossos pecados (por Sua morte na cruz)
para redimi-los pela compensação da justiça ultrajada de Deus, Ele é o
Mediador entre Deus e o homem." (23)
Esse
dogma não só é uma negação da misericórdia de Deus, como também da Sua
justiça. Exigir o preço em sangue para perdoar os pecados dos homens é
mostrar uma falta completa de compaixão, e punir um homem que não é culpado
pelo pecado de outrem, queira este ou não (assumir a culpa), é o cúmulo da
injustiça.
Os
apologistas cristãos tentam justificar isso dizendo que Jesus (que a Paz esteja
sobre ele); submeteu-se voluntariamente à morte para expiar os pecados
dos homens. A isto a nossa resposta é:
Primeiramente,
não é historicamente correto dizer que Jesus havia vindo voluntária e
deliberadamente para morrer pelos pecados dos homens. Lemos na Bíblia que ele não
queria morrer na cruz. Pois quando soube que seus inimigos estavam urdindo
contra a sua vida, ele declarou que a sua alma se entristecia profundamente
diante da morte", pediu aos seus discípulos para o protegerem dos seus
inimigos, e orou a Deus:
"
... Abba, Pai, todas as coisas Te são possíveis; afasta de mim este cálice;
porém, não (faze) o que eu quero, mas o que tu queres".
(Marcos 14:36).
Segundo,
não concebemos como o sofrimento e morte de um homem pode expiar os pecados de
outros. Parece-nos algo com o médico que arrebenta a sua própria cabeça para
curar a dor de cabeça dos seus pacientes. A idéia do sacrifício vicário ou
substituto é ilógico, sem sentido e injusto.
Em
terceiro lugar, a idéia de derramar sangue ser necessário para apaziguar a ira
de Deus foi introduzida no Cristianismo da imagem que o homem primitivo tinha de
Deus como sendo um demo todo-poderoso. Não vemos nenhuma ligação entre pecado
e sangue. O que é necessário para lavar o pecado não é o sangue, mas sim o
arrependimento, remorsos, empenho persistente contra as más inclinações,
desenvolvimento de uma maior simpatia pela humanidade e uma determinação de
cumprir a Vontade de Deus tal qual revelada a nós através dos profetas. Diz o
Alcorão:
"Nem
suas carnes nem seu sangue chegam até Deus; outrossim, alcança-O a vossa
piedade." (Alcorão
Sagrado 22:7)
A
doutrina da Redenção transforma a Primeira Pessoa da Divindade em um tirano
sedento de sangue para mostrar o amor abnegado da Segunda Pessoa. A um crítico
imparcial, o sacrifício da Segunda Pessoa parece tão deslocado e sem sentido
quanto a exigência da Primeira Pessoa parece cruel e sádica.
Arthur
Weigall faz a seguinte exegese significativa da doutrina da Redenção:
"Não
podemos mais aceitar a pavorosa doutrina teológica de que por alguma razão mística
era necessário um sacrifício apaziguador. Ela insulta ou a nossa concepção
de Deus como Todo-Poderoso, ou então a nossa concepção d’Ele como Amantíssimo.
O célebre Dr. Cruden acreditava que para o fim desse sacrifício "Cristo
sofreu terríveis dores infligidas por Deus", e isto, é claro, é um ponto
de vista que nos enoja o pensamento moderno e a que se pode chamar de doutrina
hedionda, não inteiramente divorciada das tendências sádicas da natureza
primitiva do homem. Na realidade, ela é de origem pagã, sendo, de fato, talvez
a relíquia mais óbvia do barbarismo na Fé." (24)
O plano cristão de salvação é não só moral e racionalmente insano, como também não encontra respaldo nas palavras de Jesus. Pode-se dizer que Jesus tenha sofrido pelos pecados dos homens no sentido de que, para extirpá-los da ignorância para a luz, ele incorreu na ira dos malfeitores e foi por estes torturado; mas isto não quer dizer que sua morte tivesse sido uma redenção pelos pecados dos outros e de que somente aqueles que acreditam no sangue dele devam ser perdoados. Jesus veio socorrer os homens do pecado pelos seus ensinamentos e pelo exemplo de sua vida piedosa, mas não por deliberadamente morrer por eles na cruz e oferecer seu sangue como expiação dos seus pecados.
Quando
certa vez um jovem se acercou dele e lhe perguntou, "Bom Mestre, que devo
fazer para alcançar a vida eterna?" ele nada mencionou sobre seu sacrifício
conciliador nem o poder redentor do seu sangue. A resposta dele foi igual a de
todos os outros profetas. Pois ele disse:
"Por
que me chamas de bom? não há nenhum bom senão um, que é Deus; mas se
quiseres entrar na vida (eterna), guarda os mandamentos."
(Mateus
19:17).
"Guarda
os mandamentos"; este, de acordo com Jesus, era o caminho para a vida
eterna. A Salvação não se conseguiria senão acreditando em Deus, evitando o
mal e praticando o bem, e não por aceitar Jesus como o redentor e crer na
reconciliação pelo seu sangue.
O
dogma da Redenção não é
aceito pelos muçulmanos porque:
(1)
o homem não nasceu no pecado;
(2)
Deus não exige nenhum preço para o perdão dos pecadores;
(3)
a idéia do sacrifício vicário ou substituto é injusta e cruel.
Ao pecarmos, não ferimos a Deus, mas a nós mesmos. A nódoa do pecado em nossas almas pode ser removida, não pelo sofrimento ou morte de alguma outra pessoa, quer seja esta voluntária ou não, mas pelo nosso próprio arrependimento, renegação do mal e prática do bem.
E
assim, quando Adão, após o ato de desobediência, arrependeu-se e submeteu-se
inteiramente a Deus, seu pecado foi perdoado. Nem é herdado o pecado de Adão
pelos seus descendentes, nem exigiu o sofrimento e morte de Jesus Cristo para
ser perdoado. A verdade é que Jesus não morreu na cruz afinal. A doutrina da
Redenção é uma negação da justiça e da misericórdia de Deus.
O
Islam rejeita esse dogma. Ele
declara que o perdão dos pecados não pode ser obtido pelo sofrimento e sacrifício
de quem quer que seja, humano ou divino, mas somente pela graça de Deus e pelo
nosso sincero e persistente empenho em combater o mal e praticar o bem.
"Nenhum
pecador arcará com culpa alheia, e que o homem não obtém senão o fruto de
seu proceder, e que seu proceder será examinado."
(Alcorão Sagrado 53: 38 ao
40).
"Quem
se encaminha, o faz em beneficio próprio; e quem se desvia, o faz em seu prejuízo,
e nenhum pecador arcará com culpa alheia."
(Alcorão Sagrado 17:15).
O
Islam promete a salvação (que na religião significa alcançar a proximidade
de Deus e o desenvolvimento de toda a bondade no homem) a todos aqueles que crêem
em Deus e praticam o bem:
"Qual!
Aqueles que se submetem a Deus e são caritativos obterão a recompensa em seu
Senhor e não serão presa do temor nem se atribularão."
(Alcorão Sagrado 2:112).