Composição e Natureza dos Evangelhos

Há quatro Evangelhos inclusos na Bíblia; os Evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Encontramos muitos dos ditados inspirados de Jesus (que a Paz esteja sobre ele); nesses Evangelhos. Eles foram compostos entre quarenta e oitenta anos depois da passagem de Jesus (que a paz esteja sobre ele), baseados em alguns documentos anteriores que hoje estão perdidos. Os estudiosos da Bíblia identificaram alguns desses documentos como sendo:

 (1)- "Q" (Quelle do alemão = ‘’Fonte’’), um documento escrito em Aramaico, e hoje perdido, que alcançou aos escritores dos Evangelhos na forma de uma tradução para o Grego;

(2)- "Urmarcus" = Marcos Primitivo, um esboço anterior do Evangelho de Marcos, escrito com base nas narrações de Pedro sobre Jesus;

(3)- "L", uma coleção de relatos sobre Jesus usados somente por Lucas. Uma comparação entre os Evangelhos nos mostrará que seus autores usaram tais documentos perdidos, de uma maneira uma tanto aleatória; eles nem hesitaram sequer de mudar algumas coisas contidas neles para moldar o texto aos seus próprios propósitos.

O primeiro Evangelho escrito foi o de Marcos, ele foi escrito em Roma pelo menos quarenta anos depois da assim chamada crucificação de Jesus (que a Paz esteja sobre ele). O Evangelho, como o temos hoje, é considerado uma versão ampliada do Urmarcus, sobre o qual Papias, um dos primeiros escritores cristãos, teve para dizer o seguinte:

"O velho João costumava dizer, tendo Marcos se transformado no intérprete de Pedro, ele escreveu pormenorizadamente tudo que conseguia lembrar. Mas essas recordações não estavam, entretanto, na ordem exata em que aquele relatara os ditados e os atos de Cristo. Pois ele nem ouvira nem acompanhara o Senhor, mas aliara-se, como eu já disse, posteriormente a Pedro, que costumava adaptar seus ensinamentos às necessidades dos seus ouvintes, e não para transmitir uma narrativa contínua dos sermões do Senhor."(1)

Não é possível dizer se o Urmarcus foi ampliado e revisto para nos dar o Evangelho de Marcos como o temos pelo próprio Marcos ou por alguma outra pessoa. O Dr. C. J. Cadoux, que era Professor de História da Igreja em Oxford, assim resumiu as conclusões de eminentes estudiosos da Bíblia a respeito da natureza e composição desse Evangelho:

"Ele foi escrito depois do martírio de Pedro (65 d.C.), e numa época em que Marcos, não tendo ele próprio sido discípulo de Jesus, aparentemente não tinha a mão nenhum dos discípulos pessoais de Jesus a cujos conhecimentos ele poderia referendar sua narrativa. Tais condições desta composição explicam a existência nela, lado a lado, de inúmeros sinais de precisão e um certo número de sinais de desconhecimento e de imprecisão.'' (2)  

O Evangelho de Mateus foi escrito em Grego, na Antioquia, cerca de 90 d.C. O autor fez uso de pelo menos dois documentos perdidos o "Q" e o "Urmarcus". Nenhum estudioso independente considera esse Evangelho como sendo obra do Mateus apóstolo de Jesus. Se Mateus escreveu alguma coisa, com certeza deve ter sido o "Q". Quanto às liberdades que o autor desconhecido desse Evangelho tomou com o material original, C. J. Cadoux escreve:

"Um exame mais apurado do tratamento que ele dá ao material tomado de empréstimo de Marcos, mostra que ele se permitiu ampla liberdade de editar e florear esse material para ressaltar o que ele considerava jubilar mais dignamente ao grande Mestre. As mesmas tendências são freqüentemente visíveis também alhures ao ele desenvolver a partir do "Q" ou acrescentando suas próprias criações. Qualquer aspecto, portanto, proveniente exclusivamente do texto do "Mateus", só pode ser aceito como historicamente legítimo somente com muita cautela. " (3)

O terceiro Evangelho, o Evangelho de Lucas, foi escrito em algum lugar da Grécia em torno do ano 80 d.C. destinado ao uso de Theophilus, "o mais excelente", que era provavelmente algum importante funcionário do Império Romano. Ele é basicamente uma apologia endereçada a não-judeus.

O escritor, que era amigo e companheiro de viagem de Paulo, fez uso de pelo menos três documentos perdidos, dois dos quais eram idênticos aos usados pelo escritor do Evangelho de Mateus e o terceiro era um texto a parte. Lucas, que queria adaptar seu Evangelho alinhado com o ponto de vista Paulino, tomou liberdade ainda maior com as suas fontes do que havia feito o escritor do Evangelho de Mateus com as dele.

Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são chamados de "os Evangelhos Sinóticos", porque eles partem de um mesmo documento perdido e têm multa coisa em comum já o Evangelho de João é muito diferente deles. A divindade e a pré-existência de Jesus (que a Paz esteja sobre ele); são afirmadas tão-somente nesse Evangelho, apesar de jamais como alegação apresentada pelo próprio Jesus (que a Paz esteja sobre ele).

Nas linhas iniciais o autor deste Evangelho estabelece a afirmação de que o Logos divino, a Palavra ou Razão de Deus, que havia dado origem ao mundo, havia-se encarnado em Jesus (que a Paz esteja sobre ele). O Evangelho de João foi escrito em ou próximo de Efêso entre os anos 110 e 115 da era Cristã, por algum escritor desconhecido que tinha inclinações anti-semíticas e apresentava os judeus como inimigos de Jesus (que a Paz esteja sobre ele).

Nenhum estudioso descomprometido considerado como sendo a obra de João o filho de Zebedeu, o qual, de acordo com R. H. Charles, Alfred Loisy, Robert Eisler e outros eruditos, foi decapitado por Agripa I no ano 44 d.C., muito antes do Quarto Evangelho ter sido escrito. Os estudiosos modernos da Bíblia duvidam da autenticidade não apenas dos pontos de vista próprios do escritor expressados neste Evangelho, como também das palavras que ele põe na boca de Jesus (que a Paz esteja sobre ele); C. J. Cadoux escreve:

"Os discursos no Quarto Evangelho (mesmo à parte da afirmação messiânica da abertura) são tão diferentes dos Sinóticos, e tão parecidos aos comentários do próprio Quarto Evangelista, que nenhum pode igualmente ser confiável como registro do que Jesus teria dito; a veracidade literária dos tempos antigos não proibia, como faz agora, a atribuição de discursos falsos a personagens históricos; os melhores historiadores da antiguidade praticavam contumasmente a composição e atribuição de discursos dessa maneira." (4)


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