Iman: A Sua Natureza e Caráter

 São estes os postulados básicos que, por um lado, revelam a intenção de Deus de guiar o homem neste mundo, o por outro, definem a natureza, a posição e o estatuto do homem na terra. Estudaremos a seguir os alicerces em que o Alcorão assenta as relações do homem com Deus, e a concepção de vida que decorre, naturalmente, de tal relação.

O Alcorão foca este problema em várias ocasiões,, mas toda a concepção de vida que ele encara está sintetizada no versículo seguinte:  

‘’Na verdade Deus tem comprado aos fiéis as suas vidas e as suas propriedades por um determinado preço para que o Paraíso lhes seja reservado; por isso é que eles lutam, ao serviço de Deus. A promessa do Paraíso é um contrato em que Ele se empenha no Antigo Testamento (Taurat), no Evangelho e no Alcorão. E quem é que respeita melhor os seus pactos, do que Deus? Ficai então contentes com o vosso pacto, porque ele é o triunfo supremo.’’ (Alcorão Sagrado 9:3)

 No versículo citado, a natureza da relação que se estabelece entre o homem e Deus através do Iman (o ato de ter fé em Deus) tem sido chamada pacto. Isso significa que a fé (Iman) em Deus não é apenas um conceito metafísico; ela tem a natureza, de um contrato através do qual o homem faz um acordo com Deus, oferecendo-Lhe a vida e os bens para obter a promessa do Paraíso na vida do Além.

Por assim dizer, Deus compra a vida e os bens dos fiéis, e promete-lhes, como preço, a recompensa do Paraíso na outra vida. Este conceito de troco tem conseqüências  importantes e é por isso que, antes de mais, temos de compreender claramente o seu significado ,e a sua natureza.

A verdade é que todas as coisas deste mundo pertencem a Deus. Ele é o verdadeiro proprietário de tudo. Conseqüentemente, a vida e as riquezas do homem, que fazem parte deste mundo também Lhe pertencem, porque foi Deus que as criou e que as distribuiu por cada indivíduo para as utilizar. Se colocarmos o problema nestes termos, nem sequer se trata de venda ou de compra, já que Deus é o verdadeiro proprietário e está fora de questão o fato de Ele comprar o que Lhe pertence.

O homem não é o verdadeiro proprietário, ele não tem direito a vender nada. Mas há só uma coisa que lhe tem sido concedida e que agora lhe pertence plenamente: é o livre arbítrio, a liberdade de escolher,ou não o caminho de Deus. Visto que o homem tem sido dotado do livre arbítrio neste sentido, ele é livre de reconhecer ou não a realidade das coisas.

Embora esta liberdade de vontade e opção que o homem tem não o torne, automaticamente, verdadeiro proprietário, de todas as energias e recursos que se encontram ao seu dispor, embora não adquira, o direito ;de as utilizar como lhe apraz, e embora o fato de ele reconhecer ou não a realidade não afete de nenhuma maneira a realidade propriamente dita, isso quer dizer no entanto que ele é livre de reconhecer a soberania de Deus e o Seu domínio absoluto sobre a sua própria vida e os seus bens, assim como pode recusar-se a reconhecer tal domínio e soberania e assumir uma atitude de independência total.

Ele pode, se quiser, considerar-se livre de qualquer obrigação, o para com o Senhor, e pensar ter todos os direitos e poderes sobre tudo quanto tem, e assim usar os seus bens como lhe aprouver, sem nenhuma intervenção de um comando superior.

Aqui aparece o problema do pacto. Este pacto não significa que Deus compra alguma coisa que pertence ao homem. A sua verdadeira natureza é a seguinte: todas as coisas pertencem a Deus, mas Ele concedeu ao homem certas coisas em custódia. O homem goza da liberdade de cumprir honestamente esta custódia, ou, se quiser, atraiçoá-la ou fazer mal uso dela.

O que Deus exige é que o homem reconheça livre e voluntariamente (e não pela força e constrangimento) que essas coisas são Dele e Lhe pertencem, e que terão que ser utilizadas como depósito confiado por Deus à sua custódia, e não como coisas pessoais, ele utilização arbitrária. Assim, quem renunciar voluntariamente à liberdade de negar até a supremacia de Deus, e em troca Lhe reconhecer a soberania, <<vende a sua autonomia>>, por assim dizer, (que também é dádiva de Deus e não alguma coisa que o homem tenha adquirido por si só), vende-a a Deus, recebendo d'Ele em troca a promessa da felicidade eterna que é o Paraíso. Quem fizer tal pacto é <<Mumin>> (crente), e o nome islâmico deste contrato é <<Iman>> (fé). Quem resolver não entrar neste pacto, ou quem, depois de ter concluído tal pacto, o violar pelo seu comportamento, o que lhe agrava ainda mais a situação, é um <<Kafir>> (descrente), e a tentativa de se esquivar a este contrato ou de o ab-rogar é conhecida tecnicamente como Kufr.

 Esta é a natureza do contrato. Agora vamos estudar, resumidamente, os seus vários aspectos e estipulações.

 1- Deus expôs-nos a uma dura prova por duas razões: 

a) deu liberdade ao homem, mas mesmo depois de lhe ter dado essa liberdade, Ele quer ver se o homem compreende ou não a sua posição; se continua honesto e coerente e se conserva a lealdade e a obediência ao Senhor, ou se perde a, cabeça e se revolta contra o seu próprio Criador; se porta como uma alma nobre, ou se pisa com os seus pés sobre todos os valores da honradez.  

b) Ele quer ver se o homem está preparado para ter confiança em Deus para Lhe oferecer a vida e os bens em troca de uma promessa que se vai concretizar no outro mundo-e se está preparado para renunciar à sua autonomia e a todos os seus encantos, em troca de uma promessa respeitante ao futuro.

2- Um dos princípios defendidos pela Lei, Islâmica é que o Iman consiste na adesão a um certo número de doutrinas e quem as aceitar vem a ser um Mumim. Ninguém tem o direito de denunciá-lo como infiel, nem expulsá-lo da Comunidade da Ummah, exceto se houver uma prova explícita de falsidade ou renúncia à crença. Este é o aspecto legal do problema. Mas para o Senhor, só é válido aquele Iman que consiste na submissão completa da vontade e da opção perante, a vontade de Deus. É aquele estado de pensamento e ação em que ao homem se submete completamente a Deus, renunciando a qualquer pretensão de supremacia própria. É algo que vem do coração. É uma atitude do espírito e prepara o homem para uma certa ação. Se alguém recita a Kalimah, entra no contrato, faz todas as orações e até outras ações devotas, mas no seu coração considera-se proprietário e soberano das suas forças físicas e mentais e idos seus recursos morais e materiais, utiliza-os como lhe apraz e mantém o livre arbítrio, neste caso, por mais crente que seja considerado, perante Deus ele será um infiel, porque de fato ele não entrou verdadeiramente no pacto que, segundo o Alcorão, é a essência do Iman. Quem não usa as suas forças e os seus recursos como Deus lhe recomendou, mas sim para fins que Deus proibiu, mostra claramente, não ter empenhado a sua vida e os seus bens a Deus, ou mesmo depois de os ter empenhado, falsificou o pacto -pelo seu comportamento.  

3. Esta natureza do Iman faz com que o modo de vida islâmico seja diferente, ou até oposto ao modo de vida não islâmico. O muçulmano que tem realmente fé em Deus submete-se voluntariamente, à vontade de Deus todos os aspectos; da sua vida. Toda a vida dele significa obediência e submissão, e nunca adota um comportamento arrogante ou autônomo, exceto em momentos de esquecimento. Mas passado este momento, logo que tome consciência dele, volta para o seu Senhor e arrepende-se do seu erro.  Igualmente, um grupo de pessoas ou uma sociedade de verdadeiros muçulmanos nunca se afastará da Lei do seu Senhor. A sua ordem política, a organização social, a cultura, a política econômica, o sistema legal e a estratégia internacional, tudo isso deve condizer com o Código de Direção revelado por Deus e de nenhuma maneira o poderá violar.  E mesmo que alguma contravenção seja cometida, por erro ou negligência, quando se tomar consciência dela terá que ser imediatamente corrigida, assim como terá que ser restaurado o estado de obediência à Lei de Deus. Os infiéis sentem-se livres do Governo de Deus, e portam-se como donos da própria pessoa. Quem adotar este comportamento, mesmo que pretenda ter alguma semelhança com um muçulmano, está a seguir o caminho de Satanás e dos descrentes.

4. A vontade de Deus, que o homem tem obrigação de seguir tem sido revelada pelo próprio   Deus para guiá-lo. A vontade de Deus não pode ser determinada pelos homens. Deus tem-na enunciado claramente, sem deixar nenhuma ambigüidade. Por isso, se uma pessoa ou uma sociedade são honestas e coerentes no contrato com Deus, terão que modelar, escrupulosamente, toda a sua vida conforme o Livro de Deus e a Sunnah do Profeta Muhammad (que a Paz e Benção de deus estejam sobre ele). 

Um pouco de reflexão mostrará que estes aspectos e estipulações estão, logicamente, implícitas no pacto e também resulta claramente da análise anterior, razão porque o pagamento do preço, tem sido adiado para a vida no além. O paraíso não é a recompensa pela simples profissão do pacto, mas sim pela fiel execução do contrato.

Só se o contrato for cumprido cabalmente e se o comportamento de toda a vida do vendedor, corresponder aos termos do contrato ele terá direito à recompensa. Assim, o ato final da venda é concluído só no último momento da vida do vendedor e, portanto é natural que a recompensa lhe seja dada na vida do além.

Há ainda um aspecto significante que se desprende da análise do verso acima citado se for lido com referência ao seu contexto. Nos versos precedentes, fez-se referência àqueles que professavam o Iman, e prometeram uma vida de obediência, mas quando chegou a hora da prova fizeram um papel desigual.

Alguns esqueceram-se da chegada da hora e atraiçoaram a causa. Outros fizeram prova de hipocrisia e recusaram-se a sacrificar a vida e os bens ao serviço de Deus. O Alcorão, depois de desmascarar esta gente, e criticar a sua falta de sinceridade, salienta que o Iman é um contrato uma espécie de compromisso entre o homem e Deus.

Ele não consiste numa simples profissão de fé em Deus; é o reconhecimento do fato de que só Deus é o nosso Senhor, Soberano e Rei, e tudo quanto o homem possui, incluindo a própria vida, Lhe pertence e tem que ser utilizado conforme os Seus mandamentos. O muçulmano que se portar de maneira contrária não é sincero na sua profissão de fé.

Verdadeiros fiéis são só os que tenham realmente vendido a vida e os bens a Deus e que seguem os Seus mandamentos em todos os campos de atividade. Eles não poupam nada em obediência às ordens do Senhor, e não se afastam nem sequer um passo do caminho da lealdade para com Deus. Só esses é que são os verdadeiros crentes.



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