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Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso!


 Nacionalidade 

Na sociedade humana constataram-se, em revezamento, duas tendências contraditórias: a centrípeta e a centrífuga, Por um lado, indivíduos diferentes se agrupam por meio do casamento, famílias, tribos, cidades-estado, estados e impérios, às vezes voluntariamente, outras por compulsão.

Por outro lado, descendendo do mesmo casal e ancestrais, grupos se destacam de unidades maiores para levarem vidas separadas e independentes, distantes de seus parentes; e esta separação é ocasionada às vezes amigavelmente, para desenvolver meios de vida em outro lugar e assim aliviar a carga sobre alguma localidade que tinha dificuldade em prover subsistência para todos, enquanto que de outras vezes, tais separações são ditadas por paixões, disputas e vários outros motivos.

 Apesar do conceito quase unânime de que todas as raças humanas têm a mesma origem em comum, dois fatores têm contribuído poderosamente para acentuar a diversidade: a morte e a distância. O homem está instintivamente ligado à parentes e ancestrais, porém este fator de união desaparece com a morte do parente em comum; e a noção do relacionamento entre os membros sobreviventes, cujo número se multiplica diariamente, tem uma importância que se torna gradativamente cada vez menos eficaz.

No que diz respeito à distância, ela não somente nos faz esquecer os elos de relacionamento, mas também, como a história tem mostrado, cria obstáculos insuportáveis. Paramos de falar a mesma língua, de ter os mesmos interesses ou de defender os mesmos valores.

Quando surgia o Islam, no 7º século da era cristã, as diferenças e preconceitos de raça, língua, local de nascimento e outras causas, eram a regra em vez de exceção; tão enraizadas se tornaram tais noções que se instituíram quase que como instintos naturais. Era assim por toda parte do mundo, na Arábia, na Europa, na Ásia, na América e alhures. O Islam começou por classificar essas noções como características negativas da humanidade, tentando trazer-lhes uma cura.

Os laços unificadores de família, de clã, e até de tribo, provaram-se fracos demais para servir às necessidades de defesa e segurança de um mundo onde o egoísmo e cobiça haviam gerado guerras inevitáveis de todos contra todos os demais. Às vezes, criavam-se grupos maiores pelo uso da força por guerreiros e imperadores. Fracassando, porém em criar uma identidade de interesses entre a totalidade de seus súditos, estas uniões artificiais estavam constantemente ameaçadas de desintegração.

Sem nos envolvermos com a história de milhares de anos de evolução desse aspecto da sociedade humana, seria suficiente notarmos que no nosso próprio tempo, a idéia do nacionalismo ilustra claramente este ponto. Se a nacionalidade se baseia na identidade da linguagem, da raça ou do lugar de nascimento, é evidente que fará com que o problema dos estrangeiros persistirá infindavelmente, e tal nacionalidade será por demais restrita, jamais chegando a englobar o mundo todo; e se os estrangeiros não são nem assimilados, sempre haverá o risco de conflitos e guerras. Aliás, o liame da nacionalidade não é de modo algum um vínculo seguro. já que dois irmãos podem ser inimigos um do outro, enquanto que, dois estranhos, possuidores de uma ideologia em comum, serão amigos.

O Alcorão rejeitou qualquer forma de superioridade derivada da língua, cor da pele ou de qualquer outra incidência inescapável da natureza, reconhecendo a superioridade de indivíduos somente com base na devoção. Uma ideologia comum a todos é a base da "nacionalidade" entre os muçulmanos, e o Islam é essa ideologia.

Não falaremos de religiões que não admitem conversão. Entre as religiões de aplicação universal, o Islam se distingue pelo fato de não exigir a renúncia ao mundo, mas insistir no crescimento e operação simultânea do corpo e da alma. O passado demonstrou que os muçulmanos assimilaram este ideal supra-racial e supra-regional de irmandade; e que este sentimento é uma força viva que existe entre eles até os dias atuais.

A naturalização é uma alternativa hoje admitida pelas nações, mas para se naturalizar em um novo idioma, em uma nova cor de pele, e numa nova terra, não é tão fácil quanto o é aderir a uma nova ideologia. Para os outros, a nacionalidade é essencialmente um acidente inevitável da natureza; no Islam, é uma coisa que depende exclusivamente da vontade e arbítrio do indivíduo.



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