O
Caminho Para a Espiritualidade
Podemos agora compreender, nas suas linhas gerais, o caminho que o Islam
segue à procura do desenvolvimento espiritual do homem, no contexto da vida
terrena neste mundo.
O primeiro passo nesta direção é a Fé (Iman), que significa que a idéia que deve prevalecer na mente e no coração do homem é a seguinte: só Deus é o seu Dono, Soberano e Divindade; obter o Seu agrado é o intuito de todos, os seus esforços; e só os Seus mandamentos constituem a lei da sua vida.
Esta deve ser a
sua firme convicção, e não apenas conhecimento do intelecto, mas também da
vontade. Quanto mais firme e profunda for esta convicção, maior será a fé,
que dará ao homem a força para seguir o caminho do desenvolvimento espiritual
com paciência e perseverança, e para resistir a todas as vicissitudes com
firmeza e energia.
A segunda fase é a obediência, que significa a renúncia completa do
homem à sua independência e a aceitação da prática da submissão a Deus
depois de ter proclamado a fé n'Ele como seu credo. Esta submissão chama-se
Islam (obediência) na linguagem do Alcorão. Isso significa que o homem não
deve, apenas, reconhecer Deus como seu Senhor e Soberano, mas tem que,
efetivamente, submeter-se a Ele e modelar toda a sua vida em obediência ao
Senhor.
A terceira fase é a piedade (Taqwa) que consiste na manifestação prática
da fé em Deus, na vida de cada dia. A piedade (Taqwa) consiste também na renúncia
a tudo quanto Deus proíbe, e mesmo ao que desaprova, embora ligeiramente; isso
na intenção de que o homem deve estar pronto para fazer tudo o que Deus manda
e saber distinguir entre o legitimo e o ilegítimo, entre o justo e o injusto e
entre o bem e o mal na vida.
A última e mais alta fase é a beneficiação (ihsán) que significa o homem ter identificado a sua vontade com a vontade de Deus e tê-la harmonizado completamente, pelo menos no que lhe diz respeito, com a Vontade Divina; em resultado disso, ele começa a gostar do que Deus gosta, e detestar o que a Ele desagrada.
Neste ponto, o homem não se deve limitar a evitar os males que Deus não
quer ver difundirem-se na Sua terra, mas tem que usar de toda a sua força e
energia para os suprimir da face da terra; e não deve contentar-se apenas com
adornar-se das virtudes que Deus quer que floresçam, mas também tem que lutar
para as instituir e propagar no mundo, mesmo pelo sacrifício da sua vida. Quem
chegar a esta fase terá atingido o cúmulo da espiritualidade e a maior
proximidade de Deus.
Este caminho de desenvolvimento espiritual não se destina apenas aos
indivíduos, mas também às comunidades e nações. Tal como os indivíduos, a
Comunidade depois de ter passado por várias fases de elevação espiritual,
pode atingir a última fase de <<beneficiação>> (ihsan); também o
Estado, com todo o seu mecanismo administrativo, pode vir a ser Mu'min (crente),
Muslim (obediente), Muttaqui (piedoso) e Muhsin (beneficente). De fato, os
ideais aos quais aspira o Islam são realizados de maneira perfeita só quando
toda a comunidade segue este caminho e quando aparece neste mundo um Estado
piedoso e beneficente (Muttaqui e Muhsin). Este é o auge da civilização, em
que a virtude reina na sociedade e o vício está dominado.
Vamos considerar agora o mecanismo do treino espiritual que o Islam
estabeleceu para preparar os indivíduos e a sociedade desta maneira.
O sistema espiritual do Islam baseia-se em cinco pontos fundamentais:
1)- O primeiro é testemunho de fé, o testemunho é a proclamação de fé, é a chave que faz com que o ser humano ingresse no Islam. Ele se dá, em primeiro lugar, pela aceitação do seu significado pelo coração e pela razão, eliminando, dessa forma, a dúvida, e em segundo lugar, pelo seu pronunciamento através da fala.
O testemunho engloba a crença Islâmica, quando pronunciamos a primeira parte que é:
(Ach hadu An Lá Iláha illa Allah)
ou seja:
(Testemunho que não há outra Divindade além de Deus)
E certificamos a nossa crença completa na unicidade de Deus, ou seja, na unicidade de Deus na criação, na unicidade Divina (ou seja, da adoração) e na unicidade dos Nomes e Atributos de Deus.
Essa sentença descarta a adoração de qualquer outra coisa que possamos ser tentados a colocar no lugar do Deus Único como ídolos, tais como fenômenos da natureza, poder, riqueza e similares, Deus, o Altíssimo, no Alcorão, deu testemunho sobre isso, sendo confirmado pelos anjos e sábios.
"Deus dá testemunho de que não há mais divindade além d'Ele; os anjos e os sábios O confirmam Justiceiro; não há mais divindade além d'Ele, o Poderoso, o Prudentíssimo." (Alcorão Sagrado 3:18)
Esta sentença é a base na qual será construída todo o Din, logo, é a primeira obrigação que recai sobre o crente, ou seja, a sua aceitação consciente.
"... Com exceção daqueles que declaram a verdade e com pleno conhecimento." (Alcorão Sagrado 43:86)
E completa de tudo que ela implica, como aceitação do que foi legislado por Deus, quando pronunciamos a segunda parte que é:
(Ach hadu anna Muhammadan Rassulullah)
ou seja:
(E testemunho que Muhammad é o Seu Mensageiro)
Certificamos que Muhammad
(que a Paz e a Bênção de Deus estejam
sobre ele), é o último mensageiro de Deus e,
consequentemente, isso implica na aceitação do muçulmano de tudo que ele nos
informou como a crença nos anjos, nos Livros revelados, nos mensageiros, no Dia
do Juízo Final e na predestinação.
Essa sentença não pode criar nenhuma mudança na vida do ser humano se apenas for pronunciada sem convicção, sem que se perceba o seu real significado e, principalmente, sem que seja posta em prática.
É como se estivéssemos com fome e nos limitássemos a repetir a palavra comida. Isso não adiantaria nada, pois permaneceríamos com fome. A força real dessa sentença está na sua aceitação consciente e completa e na sua colocação em prática.
2)- O segundo é a oração (Salat), que estabelece a comunhão do homem com Deus cinco vezes por dia, reforça a lembrança de Deus, reitera o temor Dele, desenvolve o amor por Ele, relembra ao homem os mandamentos Divinos repetidas vezes, preparando-o desta maneira para obedecer a Deus.
Estas orações não devem ser oferecidas individualmente: algumas
fazem-se obrigatoriamente em conjunto com toda a comunidade, em forma de
congregação,,de tal modo que a comunidade inteira e sociedade estejam
preparadas para este processo de
desenvolvimento espiritual. A oração é um instrumento de preparação tanto
individual como social para o caminho da elevação espiritual no Islam.
3)- O terceiro é o jejum (Sawum) que, durante um mês, completo
por ano prepara o homem individualmente e a comunidade muçulmana no seu
conjunto na piedade e no auto-constrangimento; facilita à sociedade, tanto aos
ricos como aos pobres, experimentarem a aflição da fome; e fortalece as
pessoas para resistirem a todas as dificuldades à procura da graça de Deus.
4)- O quarto é a Zakat, que desenvolve o sentido do sacrifício
material, da simpatia e da colaboração entre os muçulmanos. O verdadeiro
significado de Zakat é sublimação e purificação. Pela utilização desta
palavra, o Islam deseja convencer o homem de que, inspirado pelo puro amor de
Deus, a ajuda monetária que ele conceder aos seus irmãos vai elevar e
purificar a sua alma.
5)- O quinto é o Hajj (Peregrinação de Makkah), cuja
finalidade é consolidar a fraternidade universal dos crentes com base na adoração
de Deus, culminando num movimento que, durante séculos, tem respondido à
chamada da verdade e, se Deus quiser, continuará a sê-lo até à eternidade.
Temos
também o Jihad,
quer dizer o esforço supremo pela divulgação da palavra de Deus e pela
sua supremacia, bem como pela supressão de todos os obstáculos do caminho do
Islam, quer com a palavra, com os livros ou com a espada. A idéia fundamental
é viver uma vida de abnegação pela causa de Deus, e sacrificar a vida no
cumprimento desta missão. Este é o tipo de espiritualidade que o Islam
pretende cultivar, e não aquele que se afasta da vida. O Islam declara-se a
favor da afirmação da vida e da sua reconstrução com base na virtude e na
piedade, e não a favor da aniquilação da vida: este é o ponto essencial
desta religião.